Enviado por Giancarlo Zanotto.

Por onde passo, sempre compartilho essa minha deliciosa aventura:

Certa vez, estando ainda escuro, decidi ir de St Moritz a Bellagio, via Menaggio. Como era minha primeira vez na região, é claro que me perdi. Havia muita neblina e um vento gélido subia do Lago Di Como, o que tornava o passeio um tanto arriscado.

Sem rumo, resolvi parar e pensar no que iria fazer e que direção tomar.

Nisso, avisto um casal muito elegante andando perto de onde eu estava e me aproximei. Antes mesmo de tentar comunicar-me, o vento gelado trouxe o perfume daquela mulher.

Ao senti-lo, meio sem querer disse em voz alta: – Hummm, Le Baiser du Dragon.

Pronto… a comunicação olfativa havia se transformado em verbal.

Desde cedo me apaixonei por perfumes. Confesso que nem sei dizer por que, como ou quando.

Comecei com o que tinha à mão: poderia ser Paco Rabanne ou Azzaro ou até mesmo o clássico Cabochard que eu havia ouvido falar pela primeira vez na antiga novela “Locomotivas”.

Nesse hobby, já errei, acertei… exagerei na dose, na ocasião, na estação… enfim, tudo um aprendizado.

Aos poucos, fui me aprimorando e me tornando seletivo. Hoje, minha coleção não passa de uns 30 frascos escolhidos a dedo.

O próximo passo e mais natural, foi conhecer a alta perfumaria, também conhecida como perfumaria de nicho. A demanda por esse tipo de produto tem aumentado exponencialmente, seja por conta da aura de exclusividade, qualidade ou pela demanda cada vez mais frequente de cosméticos e derivados, principalmente no Brasil. Assim como os vinhos, a perfumaria é arte para toda a vida. Sempre tem alguma próxima “degustação” nos esperando.

Muitas vezes não se gosta de um perfume de nicho à primeira vista, pois ele soa diferente. É preciso descobrir suas facetas, notas escondidas, pequenas surpresas. Um exemplo é o Arabie de Serge Lutens. Perfume dificílimo, porém fantástico e voltado para climas frios. Um dia, resolvi usá-lo no verão e até hoje me pergunto onde seu criador conseguiu esconder os damascos, figos e tâmaras que agora levantavam.

Outra característica do nicho é compartilhamento de fragrâncias. Ou seja, não há separação entre masculino e/ou feminino. Tudo para todos. É achar sua cara-metade.

A perfumaria de nicho possui fragrâncias exclusivas, geralmente muito caras devido ingredientes raros, muito esmero na fabricação e na embalagem. Também são vendidas em lugares escolhidos a dedo. Isso quando não é feito somente na própria loja do perfumista.

A cada viagem que faço, sempre reservo algumas horas ou dias ao estudo. Numa ocasião, estava de férias em Nova York e fiquei sabendo que Kilian Hennessy (neto do fundador dos cognacs e um dos principais perfumistas da atualidade) estaria em Boston. Pude conversar pessoalmente com ele, ganhei vários perfumes e aprendi que, além de criar uma boa fragrância, o segredo está na administração e no marketing do produto.

Também já participei de exposições de frascos e propagandas em Montreal, me apaixonei pelo Spa da Guerlain em Paris e fiz diversos tours perfumísticos por aí afora. Passar uma tarde na Jovoy em Paris, na Les Senteurs em Londres, MiN New York Apothecary em NYC ou mesmo na LuckyScent em Los Angeles… é uma imensa realização.

Devemos atentar para perfumarias de nicho que vem despontando nos últimos anos e devem ser observadas de perto, como Histoires de Parfums, Frederic Malle, Maison Francis Kurkdjian e Serge Lutens. São cases de excelência.

Perfumes são fundamentais: podem ser peças-chave para compor nossa personalidade. Ainda mais quando ele vem do coração como gentileza, classe, delicadeza, humildade e, principalmente respeito. Contra esses aromas, não tem quem não fique inebriado.

Ah! e quanto ao casal que encontrei perto de Bellagio?

Eles, sorrindo após eu ter descoberto o perfume dela, convidaram-me para saborear um macchiato, onde conversamos sobre tudo e é claro, como eu havia acertado seu perfume. Além da conversa agradabilíssima, deram-me um livro sobre a região (não sei onde conseguiram, já que praticamente tudo estava fechado), bem como mapas e guias da região. Aquecido pela conversa, pelo café e pelo Beijo do Dragão da Cartier, nos despedimos. Jamais esquecerei disso.

Algumas verdades:

  • Preço não é sinônimo de qualidade. Nem tudo o que é caro é bom. Não precisa sair comprando o Imperial Majesty da Clive Christian (o mais caro do mundo). Existem ótimos perfumes com excelente custo benefício.
  • Compras  por impulso não funcionam. Nem mesmo borrifar no papel. Costumo dizer que comprar perfume é como um namoro, um ritual. É preciso conhecê-lo muito bem para casar. Cada pele reage de modo diferente, considerando também clima e humor. O ideal é aplicar e sentir no mínimo durante um dia todo. Aquilo que parecia ser ótimo, pode tornar-se desagradável. Às vezes o divórcio pode ser em euros ou em libras esterlinas.
  • Após o banho, devemos esperar pelo menos meia hora até os poros fecharem e a água evaporar. Isso ajudará na fixação do perfume na pele.
  • O seu preferido nem sempre agradará as pessoas.
  • Perfume não atrai nem homens ou mulheres (ele é só um coadjuvante). O que atrai é atitude.

Listo alguns que considero hypes:

Minha assinatura: Bois des Iles (Chanel)
Melhor gourmand: Ambre Narguilé (Linha Hermessence da Hermès)
Melhor feminino: Une Fleur de Cassie (Frederic Malle)
Melhor masculino: Ormonde Man (Ormonde Jayne)
Melhor perfume incensado: L’Air du Desert Marocain (Andy Tauer)
Melhor Vetiver: Vetiver Extraordinaire (Frederic Malle)
Marinho: Sel Marin (James Heeley)
Melhor frutado: Philosykos (Diptyque) – figos colhidos na hora
Originalidade: Comme des Garçons
Luxo: Cuir de Russie (Chanel)
WOW: Songe d’un Bois d’Ete (Guerlain)

Giancarlo Zanotto

É formado em Computação, Administração e Moda. Pós-graduado em Gestão de Negócios, Neurolinguística, Moda e Comunicação. Ainda é Consultor de Marketing e atua na área de Desenvolvimento de Novos Produtos e Coleções. Também é dono da Shout, empresa focada em moda, design têxtil e inovação em produtos e serviços.






Escrito por Moda para Homens
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