Costanza Pascolato é mesmo sensacional. Ela foi a primeira palestrante do Debate Moda: Tendências e Personalidades que acontece em três dias na faculdade Santa Marcelina, uma das principais escolas de moda de São Paulo. Chegou inteiramente vestida de branco às 11h35 da manha, causando contraste entre os calouros que usavam e abusavam do preto em pleno verão – e que fizeram o auditório ficar pequeno. O tema da palestra era tendências do mercado, e Costanza começou contando sua trajetória na moda até os dias atuais. “Na minha época, levava anos até sermos editores. Já coloquei muito sapato em modelo e demorei dez anos para ser editora”, começou alfinetando a geração atual de profissionais de moda. Durante toda a palestra, que mais parecia um bate papo tamanho a informalidade, ela defendeu enfaticamente a importância da disciplina para os profissionais atuais. “As famílias de muitos aqui não deram disciplina porque tiveram disciplina demais enquanto jovens. Não existe progresso sem disciplina”, puxou a orelha. Arrancando risadas devido aos esquecimentos recorrentes da idade (e sem o menor problema em achar graça de si própria), Pascolato mencionou também a importância da experiência no mercado de trabalho para o profissional que sai das salas de aula. Ela mesma fez questão de dizer que trabalhou em cerca de 10 empresas para chegar ao conhecimento e ao respeito que tem de todos hoje. “Se vocês começarem a achar que são alguém… Acabou a trajetória de vocês”, disse em tom de alerta para o auditório recheado de jovens entre 18 e 21 anos cheios de sonhos de quem acabou de ingressar na faculdade.

Para quem não sabe, ela é herdeira da tecelagem Santaconstancia, uma das poucas indústrias nacionais que ainda resiste às crescentes importações de tecidos asiáticos. Devido a imensa experiência de mercado, ela sabe que moda é muito mais que passarela. “O público não precisa de roupa da passarela, precisa de roupa para o dia-a-dia“, declarou explicando o porquê da roupa de vitrine ser diferente do que vemos nas semanas de moda. Costanza afirma que a tendência é a segregação cada vez maior do mercado e que é preciso pensar fora da caixa, sobretudo. “Não devemos ignorar nem subjulgar as piriguetes e as outras tribos de massa. É para essa gente que a minha empresa mais vende”, disse a também empresária. Para ela, é importante olharmos para os outros nichos de mercado que ninguém olha, como a moda infantil, a moda de piriguetes, a moda para a terceira idade, exemplificando alguns setores que estão abandonados. Essa é a grande razão para um mercado supersaturado, que recebe profissionais a cada seis meses que só querem trabalhar para um só público “É importantíssimo que vocês adquiram cultura de uma forma mais ampla”, finalizou.

Costanza Pascolato relançou recentemente seu livro “O Essencial”, originalmente lançado em 1999. Ele foi todo reeditado por sua filha, Alessandra Blocker e mais dois experts em web, segundo ela própria mencionou. “Queria um livro com cara de blog, se não vocês não leriam”, confessou Costanza arrancando risada da plateia. Ela acredita nos novos formatos de publicações e quis que seu livro conversasse com a geração atual de jovens: “Tem bastante informação visual que chama a atenção para uma mensagem séria”, explicou. Costanza provou porque foi e continua sendo uma das mais respeitadas profissionais de moda no Brasil.

O Debate Moda conta ainda com palestras do historiador João Braga e do estilista Fause Haten. Fiquem ligados!

+ Um pouco sobre as faculdades de moda e o mercado de trabalho






Escrito por Dhyogo Oliveira
Blogueiro e designer de moda. Também escreve no Sem Geração.