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Nem só de dias de glória vive a moda. Aliás, a moda das modelos anoréxicas, da mão de obra escrava e da poluição desenfreada é TAMBÉM a moda do racismo. Sim, o glamour das passarelas, o paetê dos desfiles, a pompa dos estilistas e a pluma das grifes vira e mexe recebe marcas de tristeza causada pela falta de compreensão e respeito com culturas, etnias e outros grupos sociais.

Parece inconcebível que nos dias de hoje ainda presenciemos verdadeiras “cagadas” como essas dentro moda, que culminam com casos de denúncia contra o racismo.

Vejamos bem, não é a Grécia Antiga muito menos a época das grandes navegações, é século XXI minha gente. Estamos falando de grandes nomes, grandes marcas e ícones da moda. Não foi o Zé das couves que chamou fulaninha de “preta”, são pessoas letradas, de voz, que produzem conteúdo e que ditam tendências que ainda produzem peças, fazem festas, desfiles ou criam coleções que desrespeitam. principalmente os negros. Tudo porque a carne negra é mais barata do mercado.

Você já deve estar sabendo. Mas se não está, vamos lhe explicar sobre o que estamos falando. Donata Meirelles, ex-diretora de estilo da Vogue (porque dias após ao acontecimento pediu demissão, não deve ter aguentado o rojão do que fez e pediu para sair!) celebrou seu quinquagésimo aniversário com uma festa em Salvador (diga-se de passagem a cidade mais negra do Brasil e também com um passado triste marcado pela escravidão) com uma festa cujo tema foi “Brasil Colonial”. Aí vem….

Antes tivesse enfiado a viola no saco e ficado em casa. Deixado passar em branco (era melhor!). Ela foi a bola murcha do fantástico porque deu bola fora mesmo. A festa, cujo tema já foi anunciado aí em cima, tinha funcionárias negras vestidas de branco como no período colonial, ou seja, como escravas.

Pronto, A merda foi lançada no ventilador, mas para completar a cagada dos piores 50 anos, a anfitriã postou uma foto sentada em uma cadeira ao lado de duas mulheres negras em pé, simbolizando uma sinhá e suas escravas.

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Obviamente a foto do b-day à la Sinhá viralizou na internet. Ativistas, artistas e profissionais do ramo condenaram a atitude de Donata. Também pudera, né? Nos dias de hoje não podemos conviver com pensamentos e ideais que não cabem na nossa sociedade ou não respeitam o próximo.

Um adendo. Por sinal faltou muita gente da moda comentando o assunto. Não vamos citar nomes aqui, mas a high society brasileira que pré-anunciava o Baile da Vogue, com convites de palito da Magnum se calou. Por que será né? Covardia por ser Donata e Vogue, só pode.

Respeitamos o tradicional Baile da Vogue, mas também zelamos nosso compromisso com a informação e, por isso, convidados ou não para o Baile, sentimos falta de um comentário que fosse sobre o assunto de instagrammers, blogueiros e digitais que se dizem compromissados com a moda. Mas deixa para lá, estamos de olho apenas.

Ah, por sinal tem muita gente achando natural, pois é só uma festa. Afinal, como pode? Hoje as pessoas estão chatas né? “Não pode rir de gordo porque é bullying”. “Comercial de cerveja já era porque senão as feministas reclamam”. “As gays exageram em ter parada” e assim vai. “Ai que povo mi mi mi!” Mas como isso ainda é possível? Século XXI né mores?

Isso é possível sim e o problema não foi só a festa em si. É a nossa cabeça que insiste em achar que tudo é normal e que o mundo é que é chato.

Mas enfim, o racismo está na moda ou a moda está no racismo? Nenhum dos dois. O racismo está na sociedade, que ainda clama por conceitos ultrapassados e que esquece que por trás de uma pele há uma pessoa. Uma pessoa que pode se sentir minorada, ridicularizada ou ofendida.

Por ora, não acredito que Donata fosse burra o suficiente de fazer isso propositalmente, porém como já disse o racismo está tão intrínseco em nós que achamos tudo muito comum e não enxergamos nossos atos discriminatórios.

Tanto isso é comum que o case Donata não é isolado na moda. Tem sandália de escravo da Dolce e Gabanna, calçados Blackface de Kate Perry, suéter balaclava da Gucci associado às figuras de Sambo e Gollywog, entre outros infindáveis casos. Depois você vem me dizer que tudo é cota, mi mi mi e que o negro, preto e pobre não sofre racismo? Repense.

Sem julgamentos se Donata é racista ou não, isso não é caso para nós. Não somos juízes, perfeitos ou Deus. Ela se desculpou e, inclusive, a revista Vogue em nota oficial, o que queremos com esse texto então?

Queremos apenas que a nossa sociedade pare e pense. Pare de achar que o Brasil é o país da paz e do amor. Que só nos E.U.A existe separação entre branco e negro, afinal a Maju não tem sido discriminada por estar no Jornal Nacional ou você nunca se deparou com um negro e segurou sua bolsa. Somos um país racista e o racismo está na piada, no meme, circulando no whats e perambulando nas redes sociais.

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Não dá mais para fechar os olhos. Vamos repensar nossos valores e se você concorda com tudo isso repasse esse texto para frente, pois quanto mais pessoas tomarem essa consciência menos casos como esse se repetirão não só na moda, mas no dia a dia.

Escrito por Diogo Rufino Machado
Ariano. Apaixonado por moda masculina e música eletrônica. Advogado. Jornalista de moda e blogueiro nas horas vagas.