Desde moleque sou fascinado pelas palavras: livros, teatro, letras de música e gírias do cotidiano. Atualmente ando intrigado com um novo dialeto utilizado na cidade de São Paulo, principalmente por nós, cuecas. Certamente você já teve contato com ele, mas não ligou o nome a pessoa. Mas não se preocupe amigo, porque hoje apresento formalmente a você o “Portugueto”.

Trata-se de um dialeto que nasceu na periferia, ganhou voz com os rappers e foi bizarramente tomando de assalto (as vezes à mão armada mesmo…) os playboyzinhos de plantão. Afinal, já falando em portugueto: Esses prayboy tá sempre brisano*.

Quer falar o dialeto? Siga as regras abaixo:

1) “Amigos” não existem mais. No portugueto, eles são “os truta”, “os mano”, “os véio”, “os bródi”. E “as mulheres” ou “garotas”, são “as mina” ou “os filé” (quando gostosas, claro).

Mencionar um grupo de pessoas nos leva a segunda” regra do portugueto:

2) Não existe mais concordância pro plural. Não importa a quantidade das “bagaça” só o artigo precedente ao substantivo e ao verbo estão no plural.

Dica: Pratique com seu chefe, tranquilo como se recitasse um trecho do “Primo Basílio”. Para dizer “Vou ao cliente levar as campanhas que já estão prontas.” use: “Vô colá lá no maluco, levá as bagaça que tá pronta.”

Quer acelerar sua prática? Conheça uma regra básica:

3) O Portugueto institui o fim do “LH” e cria novas palavras como “Baguiu”, “baruiu”, “fio” (não o elétrico, o do pai com a mãe mesmo). Dica: Chegue pro motoca da sua empresa e diga: “Mano, faz um corre que o Chuqui Norris dos maluco qué o bagui lá agora.

Senão o Zé Piqueno apaga nóis.” Muito provavelmente ele entenderá: “Cara, por favor vá com urgencia ao cliente que o chefe dele quer os documentos com urgência. Senão, nosso chefe nos mata.”

Dica muito útil: O sotaque nativo do dialeto chega até a excluir a última vogal da palavra. Pronuncia-se “Bagui” (a palavra “bagulho), “barui” (barulho), “fii” (filho). Esta regra deu origem a refinada expressão “bagarai – novo sinônimo do advérbio “muito”.

Adivinhe você a etmologia da expressão. Não posso explicá-la pois temos crianças acessando o blog, não é mesmo?!

4) Está banida a letra “r” do infinitivo de cada verbo. Você pode dizê, trazê, mintí, fazê tudo sem a letra “R” no final, que tá valendo. É uma loucura, você pode até incluir um acento pra marcar o tempo do verbo sem se preocupar. Afinel ele é facultativo.

Você pode ver que o Portugueto é ultra-flexivel, não? De início pode até parecer bacana, mas não é muito não. Falando sério, me pergunto quais as razões dessa maneira de falar ganhar um espaço expressivo entre a elite brasileira. Entendo quem nunca estudou numa escola bacana errar concordâncias verbais ou nominais (quando substantivo, adjetivo e verbo concordam em gênero e número). Mas me assusta a idéia deste dialeto ser um movimento de pura preguiça mental perpetuado as próximas gerações por pessoas que poderiam ler e escrever mais e melhor.

Sem perceber a gente começou a associar este português horrendo do gueto como papo de malandro, de macho e isso não é verdade. Chamar tudo de “baguiu” celebra um vocabulário pobre, descendente da falta de leitura, primo da falta de informação, pai e mãe da falta de reflexão. Nada a ver com esperteza ou macheza.

Se a elite cultural adere sem resalva a este dialeto, ao invés de multiplicar, desvaloriza seu conhecimento para pessoas jovens e menos instruídas. Ok, ninguém precisa chegar no boteco e dizer “ao estimado senhor atendente que gostaria de ingerir uma cerveja o mais breve possível, por obséquio.” Mas pedir uma cerveja ao garçom pode ser feito no bom e velho português. Claro que algumas das gírias são divertidas, fazem sentido e devem sim entrar no nosso dia a dia, mas vocabulário e repertório são bons e a gente gosta. Certo, mano?

* Tradução para português: Esses playboysinhos estão constemente distraidos.

Daniel Blum é colunista do Moda Para Homens, comportamento com a D-Vision.






Escrito por Daniel Blum