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A moda tem o condão de estampar o meio, o momento, as condições sociais, os anseios de seu povo e o retrato da época em que a circunda.

Então pudera, né, que ela tenha nos últimos tempos estampado sangue, violência, armas e trajes de guerra.

Vivemos tempos sombrios. “Ameaçada” pelo terrorismo, a Europa desconfia. Desconfia do diferente, do não europeu, do imigrante e do árabe, que pagam as contas pela generalização.

Na paleta não existe Pantone. Vermelho sangue da Guerra da Síria que todo mundo a assiste comendo pipoca como se fosse Apocalypse Now. Mas não é só isso não? O negro, o preto, o escuro e o cinzento vêm por conta da política de Trump. Política de retrocesso, intolerância e medo.

Dez minutos de desfiles, vinte modelos e alguns looks que coroam o camuflado, o verde oliva, casacos de trincheiras, armas, vestuários de guerra… O militar está em alta, uma salva de palmas.

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Por aqui, uma besta consagrou-se na política sob o suporte e o pior legado de todos, o do porte de armas.

Onde vamos chegar? O pior de tudo é que silenciosamente campanhas, desfiles, coleções, peças e tudo que é relacionado à moda, estão estampando a violência.

Seria a violência dos morros do Rio ou violência das guerras africanas ou violência dos atentados de Paris. Pouco me importa, a violência da sua cabeça. Fato é que essa bicheira está na moda.

Discretamente aqui em forma de revólver, silenciosamente ali em forma de máscara de gás ou despercebida lá em forma de vestidos acolchoados (anti-impacto) e assim vai. Tem exemplo além do necessário, pode apostar.

Os tempos não são dos melhores. Vamos e convenhamos. Só que o não dá é ver campanhas em que os modelos usam resolveres ou em que se coroa por mero deleite a guerra.

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PARA TUDO. Vamos começar do zero. A moda tem uma grande função social, libertária e questionadora (tanto que é considerada por alguns uma ciência) e, por isso, não dá para coadunar com essas besteiras, perversidades e com o B.O. da violência.

Até questionar, criticar, interpretar, tudo bem. Mas colocar armas em campanhas é o fim do Mundo.

Na Irlanda, onde nem os policiais têm armas, os índices de violência são os menores do Mundo e por que será, né gente? Em compensação alguns estados dos Estados Unidos em que a terra do Bang Bang come solta. Adivinha?

Não estamos aqui para falar de desarmamento ou não, mas sim para falar que a moda não pode, não deve e não deveria nem passar perto de itens que propagassem guerra, medo, ódio, intolerância e tudo de pior que temos visto por ai.

Como foi bem dito no FFW: “Em A Era dos Extremos (1994), o sociólogo Eric Hobsbawn já citava seu espanto quanto ao fato de alguns criadores de moda serem capazes de prever mudanças sociais importantes, antes mesmos que os mais premiados acadêmicos – esse seria “o poder profético da moda”.

De maneira consciente ou não, mas certamente atuando como sensíveis antenas de movimentações latentes em nosso mundo, algo tem sido deixado no ar por desfiles e editoriais menos comentados pela grande mídia, mas que trazem à tona elementos complexos para compreendermos o que nos espera em um futuro que caminha para a sofisticação dos meios de comunicação ao mesmo tempo que propõe sociedades cada dia mais vigiadas e militarizadas em nome da segurança e do mercado do entretenimento.”

E isso não é legal! Com licença vai vamos repensar o que estamos fazendo? Para onde estamos caminhando? E o que queremos em um futuro próximo?

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Não adianta dar dois passos à frente e cinco atrás. Pior que isso é bater palmas para louco dançar. Vem cá, te conheço moda? O que está acontecendo? Sim, a gente já viu de tudo na passarela. Nem melancia no pescoço surpreende mais. Mas, por favor, “seje menos”. Coroar a violência não.

Escrito por Diogo Rufino Machado
Ariano. Apaixonado por moda masculina e música eletrônica. Advogado. Jornalista de moda e blogueiro nas horas vagas.