Preconceito provocado

Abro o facebook num dia qualquer, e me deparo com o depoimento abaixo. Decidi compartilhar com vocês devido a uma série questionamentos que nós ouvimos e pensamos todos os dias como “Será que essa roupa é de homem? Será que vão me lançar olhares se usar determinada peça?” Às vezes uma peça que não seja usada pela maioria dos homens brasileiros já causa estranhamento apenas por sair fora do comum, e aí muita gente deixa de usar o que gosta simplesmente preocupado com o que os outros vão pensar. Então, veja o depoimento deste homem, Erick Calistrat, que decidiu ir para a faculdade usando Kilt por um único motivo: sentir na pele como é ser julgado pelos olhares preconceituosos e ignorantes.

“Fui para a faculdade ontem (dia 07/08) de kilt por dois motivos. Primeiramente, para chamar atenção, acho que isso todo mundo já sabe, né. E segundamente, e obviamente mais importantemente (não estou mentindo): Eu quis sofrer preconceito.

Depois de ler uma matéria sobre transgêneros (não confundir com transgênicos) e sobre o Laerte, cartunista brasileiro famoso que resolveu se vestir como mulher aos 65 anos de idade, fiquei muito chocado, mas muito curioso. Procurei mais sobre e encontrei uma entrevista com ele no programa Roda Viva, na TV Cultura. Naquela entrevista, uma repórter fez uma pergunta muito interessante e perturbadora, que foi mais ou menos assim: “Larte, você fazia parte de um grupo que praticamente é imune, né. Branco, magro, classe média, heterossexual, bem sucedido, pai de família. Como é perder completamente essa barreira?”. Eu fiquei muito surpreso em ver que, tirando a parte do “pai” e do “bem sucedido”, a descrição batia com a minha própria! Eu nunca havia parado para pensar o quão fácil e livre de preconceitos a minha vida havia sido até então, sem eu nunca ter feito NADA para “merecer” isso.

Desde então tenho lido muito sobre preconceito, homofobia, transgêneros, exclusão, minorias, cotas. Resolvi aproveitar o presente que minha namorada trouxe para saber como uma pessoa NADA comum se sente em espaços públicos. Estava usando um adereço simples, comum em outros países, símbolo até de status social em alguns lugares, mas extremamente estigmatizado no Brasil. Um kilt é uma saia, e não interessa de onde vem: Se você é homem, você não pode usar saia, senão você é viado. E viados são sujos. Foi mais ou menos isso que eu quase pude escutar dos olhares, cutucadas, risadas e comentários das pessoas nas ruas, no ônibus, no metrô, em casa.Convido a todos que se acham inteligentes, maduros e sem preconceitos a andar de mãos dadas, ou até abraçado com alguém do mesmo sexo. Ou com uma roupa muito incomum. Ou até mesmo aparentando qualquer defeito físico. Quando você se vê rodiado de pessoas te olhando e fazendo questão de mostrar que estão insatisfeitas com sua aparência, você percebe como é mais fácil ser branco, magro, classe média, heterossexual, bem sucedido, pai de família.”

Palmas.

Veja nosso histórico de posts sobre o assunto:

Look MPH: Kilt e Sobreposição

Saia para homens: preconceito até quando? Veja a história

Look MPH: saia ou kilt no SPFW

Saia para homens

Homens de saia ou legging

Blogueiro e designer de moda. Também escreve no Sem Geração.
Post criado 142

6 comentários em “Preconceito provocado

  1. Para mim, esse é o verdadeiro homem livre, assim como o Laerte também, que não precisam seguir uma norma ou um padrão para se sentirem bem acolhidos.
    Conheço algumas poucas pessoas incríveis, muito boas de coração, de espírito e de atitudes, que são julgadas pelo sistema por serem diferentes, tatuadas.
    Sociedade conservadora de merda.

  2. Olá Erick Calistrat, agora imagine-se vivendo isso diariamente…. (mesmo sem a saia)…lendo no jornal que poderia ser vc a ter uma lampada acertada em sua cabeça… e tendo que ter muito jogo de cintura para enfrentar diariamente os obstáculos que a vida coloca em sua frente, por ter uma vida diferente das demais pessoas (mesmo que ninguém tenha nada a ver com isso)… Acredito que se mais homens tivessem a mesma atitude que você, menos homosexuais como eu seriam discriminados. Um abraço, Márcio

  3. Se todos os homens, independente de sua orientação sexual, pensassem igual ao Erick com certeza teríamos um pais bem melhor. Livre de preconceito tolos, e pré-conceitos mais todos ainda. Não é uma saia ou outra coisa “incomum” que defini a sexualidade de ninguém. As mulheres quando começaram a usar calças não deixaram de ser femininas e acho que esse é o ponto. Homem pode usar saia, kilt ou qualquer coisa que lhe der vontade sem deixar de ser homem.
    Na verdade quem é heterossexual mesmo não liga para o que os outros vão pensar dele, porque ele sabe o que é e isso basta.
    Parabéns pela iniciativa Erick!

  4. Olha admirável, parabéns Erick! Na minha antiga e na minha nova escola, se eu fosse ou for com uma peça nem tanto ousada quanto um kilt, mas tipo sei lá, uma calça com uma cor chamativa, tipo vermelho, praticariam provocações contra mim, com o propósito de fazer eu me sentir umilhado. E se eu enfrentasse, me bateriam sem nenhuma piedade.
    Uma menina da minha sala me disse que um garoto de uma escola aqui perto se jogou de um viaduto, por que viu que os meninos que praticavam bullying com ele estavam se aproximanto. Isso por que ele tinha uma aparência um pouco geek, e era estudioso. Infelizmente ele morreu, é claro.
    Mas é isso, todos nós temos que acabar com o preconceito no Brasil. Estou pensando até em comprar um kilt e ir pra escola com ele um dia, mas vou com um canivete no bolso (kilt tem bolso?) bom se não tiver ponho dentro do meu fichário.

    Até logo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo
A importância do Setembro Amarelo O Pop-Punk está voltando à moda! PEÇAS QUE AS MULHERES ODEIAM NOS HOMENS Old Money: A estética ‘Rico Vintage’ Truques de estilo para homens gordinhos