Todo mundo gosta de ser bem atendido, mas as vezes não paramos para pensar como tratamos a quem está nos servindo, os garçons. Ao sentarmos numa mesa de bar ou restaurante, geralmente estamos com fome, com pressa e exigimos um atendimento primoroso, sem as vezes prestarmos atenção se estamos retribuindo o “por favor”, “obrigado” ou até mesmo um simples “bom dia”.

Para conhecermos mais de perto o dia-a-dia de um garçom, fomos com o guia colaborativo Guidu em 4 estabelecimentos de São Paulo. Além disso, eu mesmo vesti o uniforme e avental para sentir na pele como é estar do outro lado do balcão e, sim, servir é uma arte! O Spot é um dos restaurantes mais badalados de São Paulo e há fila de espera antes mesmo de as portas serem abertas, todos em busca de um ambiente bonito e descolado. Lá os garçons cumprimentam os clientes mais antigos com beijos e abraços, além de trazerem as suas bebidas favoritas sem que eles precisem pedir por elas.

Guilherme Kanawati e Patrícia de Souza possuem nível universitário e parecem adorar o que fazem, tanto que ambos trabalham lá há mais de 3 anos. As vagas são concorridas e quem é selecionado recebe um treinamento de 2 semanas antes de atenderem o primeiro cliente, além das reuniões diárias com todo o staff. “Quando venho trabalhar sei que posso atender todo tipo de pessoa, mas sinto prazer quando alguém entra mal humorado e sai daqui sorrindo, sinal que fiz o meu trabalho. Tento levar esta filosofia de transformar o humor de alguém para melhor até para a minha vida pessoal e dá certo” diz Guilherme.

(Pedro Cunha)

O Bar Volt, famoso pelos seus neons coloridos espalhados pelas paredes e por ficar na região da rua Augusta, já trouxe uma história pitoresca para Pedro Cunha, publicitário que se forma no final do ano e sempre faz freelas como garçom: “Uma vez um cliente de uns setenta anos chegou aqui com sua jovem esposa e, aparentemente muito ricos, me pediram uma dose de whisky e uma garota de programa para lhes fazerem companhia. Eu tive que explicar tranquilamente que aqui era um bar e que não prestávamos este tipo de serviço, mesmo percebendo a sua cara de desapontamento”.

(eu a esquerda e Renata a direita)

Curiosidades a parte, quando vesti o uniforme do meu terceiro “emprego” da noite, no Gorila Café, fiquei surpreso ao saber que o cardápio era inspirado na alimentação de um gorila, ou seja, 95% de vegetais e 5% de proteínas.

Mais surpreso ainda fiquei ao ser avisado pelo gerente que os garçons dali tem a missão de vender uma entrada, um prato principal, uma sobremesa e um café/água por cliente. “Um garçom também é um vendedor, afinal, o seu salário é potencializado pelos 10% de cada mesa. O ideal é que você conheça cada prato e saiba indicar um vinho ou acompanhamento para ele, o cliente espera este tipo de serviço e você tem sempre que estar pronto para satisfazê-lo”. Ao meu lado estava a barwoman Renata Galetti, que diz ter ficado ainda mais exigente com o atendimento dos garçons depois que ela também passou a trabalhar nesta área, “Aqui eu trato bem, então quando saio, exijo ser bem tratada também”.

O meu último destino da noite foi o Bar da Dida, onde eu conheci o simpático garçom Alessandro, de 21 anos e que me deu um sábio conselho: “Quando um cliente é mal educado comigo, sabe o que eu faço? Aí é que eu começo a tratá-lo muito, muito, mas muito bem. Eu trato todos de forma educada, mas este eu vou tratar ainda melhor… e isto eu levo pra minha vida, afinal, pra que retribuir o mal com o mal?“.

A esta altura da noite, quase 2 da manhã, os clientes já estavam mais alegres e sensíveis, me dando longos abraços, contando suas histórias de vida, oferecendo conselhos para que eu tentasse um novo emprego, enquanto eles reclamavam dos próprios.

As duas últimas mesas que servi foram clicadas pelo nosso fotógrafo, que ofereceu-se para registrar o meu 1º dia de emprego ao lado dos clientes, que toparam de prontidão. Após eu lhes contar que tudo se passava de uma reportagem com o intuito de mostrar o dia-a-dia de um garçom, eles gentilmente nos cederam o uso de suas imagens.

Aprendi muitas coisas nesta noite de trabalho como garçom! Por exemplo, não ligamos de sermos chamados de campeão, amigo, chefia ou até de bigode (mesmo eu não tendo um). Mas é extremamente decepcionante ser chamado de “psiu”, “ei, coiso” e “ou, ou, oooooou”.

E agora, a velha e tradicional saideira: “Trate aos outros, inclusive os garçons, da mesma forma que você gostaria de ser tratado“. Um brinde!

*Fotos por Ricardo Barini.






Escrito por Felippe Canale
Jornalista e produtor de conteúdo. Veja mais no site eaiconteudo.com.br.