Frequentemente, muitas pessoas que acompanham minhas postagens me perguntam nas redes sociais sobre a faculdade de moda: fazer ou não fazer?! Pois bem, eu entrei na faculdade em 2010 e me formei em 2012. E nunca ninguém se preocupou em abrir meus olhos para a verdadeira situação de um curso de moda x situação do mercado de trabalho atual. Inspirado na notícia que tive o desprazer de ler há tempos sobre a sobrinha da Gisele Bundchen, Duda, que assinou a sua primeira coleção com apenas 5 anos de idade, escrevi esse post para tentar ajudar alguns que ainda têm dúvida sobre o curso.

Existe um largo caminho e uma grande diferença da vida acadêmica e do meio profissional nesta área. Tá certo que o curso de moda no Brasil é bem novo (as primeiras escolas de moda chegaram aqui na década de 1980) e que este pré-conceito da moda na universidade é um assunto difícil até mesmos para os docentes que estão à frente do curso, e tudo isso complica ainda mais a adequação da faculdade à vida real. Antes de escolher qualquer escola de moda, pesquise bem sobre qual foco você quer dar a sua carreira. Deparei-me ao longo do curso com colegas de turma com objetivos muito distintos uns dos outros. Sempre tinha um que queria ser modelista, outro era mais focado na parte de marketing, negócios, outros apenas sabiam desenhar e muitos outros (ou talvez a maioria deles) se matriculavam na faculdade de moda apenas porque eram consumistas. É, minha gente… O fato é que a escola que escolhi para me profissionalizar era um curso de Design de Moda, e na verdade não focava em nada. Então, muitos colegas de turma acabavam desistindo no meio do curso.

O corpo docente tem a grande ilusão de estarem formando estilistas belgas (para quem não sabe, são os mais criativos do mundo) e acham isso apenas por uma questão de egos, mas não dão nenhuma estrutura pra isso. Roupas para bonecas, desenhos aleatórios e grandes gastos são alguns dos trabalhos que são pedidos aos alunos. Certa vez ouvi de uma professora que “nosso curso está no mesmo nível que a faculdade de Antuérpia” e, por meses, eu acreditei. Mas não, nenhuma universidade no Brasil pode ser comparada com nenhuma estrangeira, até porque a moda que é feita lá fora é extremamente conceitual, muito diferente da realidade do nosso país. E esse é o ponto. No geral, os cursos de moda são contos de fadas, que quando você chega ao último capítulo descobre que aquela história de finais felizes só funciona mesmo para ficar guardadas na estante, junto com outros livros velhos. A realidade aqui é outra.

O que os alguns professores deviam passar para seus alunos e o que muitos alunos deviam entender é que a história da moda foi escrita por costureiros, modelistas e, atualmente, maketeiros e compradores. É só olhar para a história e ver que Chanel era costureira, Grès era costureira, Vionnet era costureira e Dior era modelista, só para se ter uma ideia. Então, se a sua intenção é ser realmente ser um estilista de sucesso, comece costurando e modelando, pelo menos, 4 horas por dia. Porque nada adianta você criar uma coleção incrível no papel se mal sabe como aquela roupa vai entrar nas pessoas.

Outro ponto é que, no mercado de moda nacional, estilista é um profissional demodê, ultrapassado e em extinção. Porque vocês acham que Reinaldo Lourenço vai parar em móveis, esmaltes e relógios e Alexandre Herchcovitch acaba nas prateleiras dos mercados estampando copos de requeijão, capas de celulares e descansos de copo?! Porque a moda está democrática? Não, é simplesmente porque o business vem acima de qualquer processo criativo, e antes de você criar qualquer coleção que seja, primeiramente alguém vai te dizer quantos rolos de tecidos foram encalhados da coleção passada, quantos poucos reais você tem para gastar e quais os tecidos chineses 100% poliéster você vai poder usar. (HÁ!) Alguém vai precisar falar com os fornecedores, cobrar prazos, chorar preços, conquistar clientes do atacado… E esse alguém não vai ser o estilista, sabe por quêPorque não é isso que ensinam na faculdade de Design.

E é exatamente esse o profissional que está em falta no Brasil, o comprador de moda. Além das costureiras e modelistas, é claro. E é nessas horas que eu me lembro das aulas de materiais têxteis e me arrependo de não ter dado a devida atenção para o que o professor ensinava, pois achava tudo muito chato e que nada aquilo tinha a ver comigo, preferindo outras aulas mais criativas e proporcionalmente irreais. E essas coisas todas eu só aprendi quando saí da sala de aula para procurar trabalho. Estão todos (professores e alunos) pouco se importando como está a situação da moda ano Brasil e o mercado de trabalho. Estão preocupados mesmo em ensinar algo que deixem o ego cheio e matricular no curso porque “tá na moda fazer moda”. Resultado? Abandonos recorrentes, profissionais desqualificados, frustrados e ajudando a construir uma imagem cada vez pior do profissional de moda. E os pouco que vão até o fim e se formam, acabam nos balcões das lojas de varejos ou trabalhando como assistente de estilo por R$900.

Os problemas são muitos e estão por toda parte. Eu sou um designer formado que trabalhei por quase 3 anos com pesquisa de tendências têxteis e desenvolvimento de produto, e larguei para me dedicar a outras áreas, mas preocupado com o campo em que atuo, e acho que basta cada um fazer a sua parte para que algo possa tentar ser mudado. A forma que eu tenho é de alertar quem ainda está na dúvida do que cursar.

Bairro do Brás-SP, considerado o maior centro de confecção do país, fatura R$ 12 bilhões por ano.

Mas se você quer trabalhar com moda, e seu negócio é realmente esse (como eu), há diversas formas de se fazer isso sem bater com a porta na cara depois de formado.

Querem ser jornalistas de moda?! Cursem jornalismo, ele vai te dar uma base de escrita muito boa e a moda você estura por fora, e depois pode fazer um pós graduação na área.

Quer ser designer?! Curse desenho industrial, arquitetura, design gráfico, qualquer curso que amplie sua visão sobre o design. A moda é só um deles.

Quer ser modelista?! Existe um curso muito bom em produção de vestuário, entre outros. Além disso, uma dica primordial: trabalhe.

Quer ser figurinista?! Há ótimos cursos e oficinas de idumentária. Entre em companhias de teatro para montar figurinos, escolas de samba (elas dão uma grana surreal) e, sobretudo, estude história.

Quer ser produtor de moda?! Corre atrás e não espere um retorno financeiro imediato. Faça seu nome, faça seus contatos, colecione imagens, se ofereça para ser assistente.

Quer ser consultores de moda?! Façam isso no final da vida, depois de viver todas as experiências possíveis. Para ser consultor de alguém ou de alguma empresa, vocês precisam ter experiências de décadas para isso.

Espero ter esclarecido as dúvidas de alguns e aberto os olhos de outros para a real situação do mercado de moda atual. Eu seria imensamente agradecido -e revoltado- se alguém tivesse me dito isso quando ingressei na faculdade.






Escrito por Dhyogo Oliveira
Blogueiro e designer de moda. Também escreve no Sem Geração.