O SPFW acabou e é hora de fazer o balanço daquilo que vimos ao longo dos cinco dias de desfiles na cidade de São Paulo. Hoje a pauta é sobre o macacão que a Ellus apresentou em shapes com influência, sobretudo, das roupas dos lenhadores e trabalhadores do campo, num desfile que deu uma aula em beneficiamento do jeans (o que deu o toque de moderno nos looks). A coleção foi apresentada no salão nobre do Teatro Municipal de São Paulo, que uniu muito bem todo o trabalho de excelência da marca ao tradicional da locação escolhida.

Os três modelos de macacão apresentados pela Ellus no último SPFW. Os tons terrosos combinados ao jeans relembra a origem da peça.

Muitas peças ao longo da história são criadas devido a uma demanda que emerge de repente. Acabam ultrapassando esse meio após os anos, sendo inseridas de uma maneira geral na sociedade. As roupas criadas para trabalhadores não foram – ou são – diferentes: muitos uniformes passaram a ser adotados no guarda-roupa de todos depois de sofrerem mudanças pelos estilistas que enxergam que novas matérias-primas podem se adequar ao uso à peça e deixa-la ao alcance de todos.

Para a primavera / verão da semana de Paris, Junya Watanabe também se inspirou nos trabalhadores e suavizou a rigidez com cores leves.

Com o macacão foi assim. Inserido (ao que tudo indica, nos anos 1940) para trabalhadores que lidavam com máquinas pesadas de maneira a protege-los dos possíveis danos que elas poderia causar. História semelhante é a do jeans, inicialmente usado para cobrir carroças e logo depois inserido nos uniformes do proletariado ainda no final do século XIX.

O macacão, no entanto, é menos amplo, mas não menos curioso. A figura de Charles Chaplin em Tempos Modernos ilustra muito bem a utilização dessa peça que, até os anos 60, era usada exclusivamente por trabalhares. E foi nessa década que o macacão (ou jardineira) começou também a ganhar outros olhares, até se popularizarem nos anos 80 agregando cores, formas e, principalmente, materiais.

Mas parece que há uma tentativa de retorno desta peça, não só pela Ellus, que apostou na forma quase tradicional do macacão (principalmente pelo tema de desenvolvimento da coleção), mas em passarelas internacionais também. Destacando há duas temporadas, vimos nos desfiles de inverno de Christian Lacroix e Jean Paul Gautier (só para citar alguns), é possível observar que os designers trazem a mesma proposta desse novo-velho macacão. Por aqui, Alexandre Hechcovitch também fez sua aposta em sua linha jeans do inverno passado no Fashion Rio e, para o verão deste ano, apresentou versões leves da peça, como a bermuda no lugar da calça, em cores como o verde limão. A Colcci também é outra marca que colocou na mesma temporada (verão 2013) as suas versões em denim quase sem tratamentos, apesar de parecer macio e leve, que favorece a aparência de uniforme, principalmente quando o stylist resolveu dobrar as mangas e as pernas.

O macacão não tem muita praticidade, nem mesmo utilidade a não ser pela estética e estilo. As opiniões se dividem: o que para muitos pode parecer feio e uma tentativa forçada de parecer fugazmente estiloso, para muitos pode ser símbolo de estilo, elegância e conforto (sim, por que não?). Seja como for, o fato é que as peças vêm e vão a todo o momento, seja nas passarelas, seja nas ruas, e muito mais no momento que a moda está vivendo atualmente de, além da recriação, resgate a um passado não tão distante e democratização.

As peças foram vistas também no desfile da Colcci para a primavera/verão 2012.






Escrito por Dhyogo Oliveira
Blogueiro e designer de moda. Também escreve no Sem Geração.