*Este texto contém doses extras de vida pessoal. Se você não estiver interessado, não prossiga.

 (Cena do filme “O Albergue Espanhol”)

Morar sozinho é o sonho de muitas pessoas e, como tudo neste mundo, tem o seu lado positivo e negativo. Ou seja, alegrias e dramas, porque as vezes o roteirista da nossa vida resolve deixar tudo mais emocionante.

Logo que eu vim morar em São Paulo fui parar num apartamento da rua Augusta que um amigo de um conhecido meu (aquelas histórias que não precisam fazer muito sentido) havia me indicado. Com pouca grana e vontade de morar na cidade que promete nos entreter mesmo nas noites de insônia, fui dividir apartamento com pessoas até então desconhecidas. A “entrevista” foi algo bem simples e feita com os dois moradores que já residiam no apartamento e também precisavam rachar as contas:

– Qual o seu nome? Felippe.
– Você estuda ou trabalha? Sim, ambos.
– Você conhece o Fulano e veio por indicação dele, né?  Isso.
O valor por mês é R$ xYz para cada um. Tudo bem. (era quase o meu salário inteiro do estágio).
– Então tá ótimo! Quer conhecer o seu quarto? Quero.

E foi assim que eu passei a escrever o meu próprio endereço, e não o da casa dos meus pais, nos formulários e isso me trazia um certo orgulho. E também a lavar a louça dos outros quando eu queria ver a pia da cozinha limpa. É claro que também já tive as minhas roupas estendidas no varal quando eu o esquecia de fazer, afinal, a colaboratividade faz parte do dia a dia de quem convive em grupo. Um pacote de bolacha recheada que some da sua dispensa é recompensado pelo requeijão alheio encontrado num cantinho da geladeira, deixando a sua torrada mais feliz e menos seca.

Morar com pessoas de diferentes personalidades é um aprendizado de vida! E quando elas não fazem parte da sua família, é preciso ter jogo de cintura e uma dose extra de bom humor. Eu, que sempre gostei de festas, as vezes ficava incomodado quando acontecia alguma na minha casa e eu não podia participar, seja por ter que acordar cedo no dia seguinte ou simplesmente por não ter sido convidado. Sim, também acontece de cada um dos moradores ter a sua turma específica de amigos. Até hoje me lembro de uma terça-feira, às 2 da manhã, e o som rolando alto naquele apartamento da Rua Augusta. Os convidados gritavam, bebiam, gargalhavam e dançavam sem que eu pudesse fazer nada enquanto tentava dormir. Foi aí que tive a ideia de sair pelado do meu quarto com a desculpa de pegar um copo de água na geladeira, afinal, eu não queria parecer mal educado ao expulsar todos de casa. E deu certo, em 5 minutos a galera foi embora e eu pude voltar a dormir tranquilamente. Não sei se eu poderia citar os nomes deles aqui, mas dividir um apartamento com a Maíra e o Cássio foi uma experiência ótima na minha vida.

Depois disso eu viajei, morei com outras pessoas, voltei para a casa dos meus pais e até fiquei casado durante cinco anos. Atualmente moro sozinho (sempre que falo isso, lembro daquela tia que diz: “Sozinho não! Você mora com Deus!”) e pude fazer a lista abaixo sobre esta atual fase:

DRAMAS

1- Acordar no meio da noite após um pesadelo ou ouvir um barulho estranho e não ter a quem recorrer ou abraçar.

2- Colocar uma roupa pra sair num primeiro encontro e ninguém te avisar que você esqueceu de passar perfume ou está usando uma meia de cada cor.

3- Assistir um filme e não ter para quem perguntar: “Você entendeu esta parte?”.

4- A casa estar uma completa bagunça e ter a certeza de que você é o único culpado por isso.

5- Cozinhar apenas para si mesmo é muito chato, afinal, ninguém faz meia xícara de arroz ou compra 1 único bife.

6- Ir tomar banho e esquecer de levar a toalha. Xiiii… vai passar frio enquanto a busca e depois ainda terá que passar pano pela casa toda.

7- Chegar em casa tarde depois de um longo dia de trabalho e ter a certeza de que o jantar será um miojo feito por você mesmo ou uma pizza do delivery. Aliás, morando sozinho, não tem nem com quem tirar par ou ímpar pra ver quem irá buscar a pizza quando o entregador chegar.

8- A gente leva anos tentando sair da casa dos pais e, quando consegue, percebe que sentirá saudade deles para sempre.

9- Chegar bêbado em casa e mal conseguir abrir a porta. E nem adianta tocar a campainha, porque não vai ter ninguém para abrir a porta para você.

10-  Sem contar o fato de não ter com quem dividir as contas de telefone, internet, gás, TV a cabo, faxina, etc.

ALEGRIAS

1- Já vamos começar com a boa notícia: você vai poder transar no dia que quiser, quando preferir, quantas vezes desejar e em todos os cômodos do lar, doce lar, afinal, a casa é só sua!

2- A partir do momento em que você entrar pela porta, poderá deixar todas as suas coisas espalhadas: tênis, mochila, casaco… e ninguém poderá reclamar, a não ser você mesmo quando precisar recolher cada peça tudo de novo.

3- Você pode fazer festas todos os dias e sempre que alguém cogitar fazer um esquenta pré balada, é só dizer: “Eu sugiro que seja na minha casa, podem levar bebidas a vontade que a diversão está garantida.”

4- Ficou com fome durante a madrugada? Ninguém irá te achar louco por querer assar um peixe às 3 da manhã, afinal, você mora sozinho.

5- Toda e qualquer regra do lar será feita por você, sendo o único responsável pela bagunça ou organização. É como ser o rei do próprio universo e enfrentar sozinho as batalhas e vitórias.

6- Ter o direito de curtir um mal humor, introspecção ou o simples fato de querer ficar sozinho naqueles momentos de autismo seletivo.

7- Poder cantar um ópera ou funk embaixo do chuveiro sem se importar com possíveis julgamentos.

8- Ter a possibilidade de adotar um cachorro, gato, cracatua, pato, hamster, coelho ou qualquer outro animal de estimação sem que o seu possível roommate se declare alérgico.

9- Chegar em casa às 8 da manhã acompanhado de 2 anões, um trio elétrico, uma prostituta albina, um mico leão dourado, três políticos, duas freiras e uma girafa… e, mesmo assim, não precisar dar explicações para ninguém.

10- Desfrutar da licença poética de andar pelado pela casa não tem preço! Fim.






Escrito por Felippe Canale
Jornalista e produtor de conteúdo. Veja mais no site eaiconteudo.com.br.