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A moda, mais do que nenhum outro ramo, tende a caminhar sempre em uma mesma direção. Lógico, não podemos nos esquecer dos contestadores que não a seguem ou não vivem dela, criando uma identidade própria por meio de guetos, clãs e minorias dotadas de estilo e personalidade própria, mas isso é exceção.

Mas vamos e convenhamos, em sua maioria, a massa populacional do planeta segue os ditames dela. O berço está na alta costura francesa e nas Maisons europeias, com destaque para as semanas de moda de Paris, Milão, Londres, bem como para umas e outras mais distantes como, Nova Iorque, Tóquio e outras em menor escala, como a SPFW e Fashion Rio.

É incrível como surge uma tendência. Parece até que todo mundo combina, não é mesmo? 2017 é ano do oversized, do metalizado e do militar. Pois bem, cada grife, marca ou loja trará as nuances e releituras das tendências de acordo com as suas perspectivas, mas poucas irão divagar tão longe a ponto de se perderem delas. O Mundo todo estará usando a mesma tendência. Pasmem!

Mas o mercado da moda está vivendo uma dicotomia muito louca.

Ao mesmo tempo em que é o segundo que mais polui, ficando apenas atrás da indústria petroquímica, destruindo toda e qualquer fonte do planeta como terra, água, ar, solo, fauna e flora, tem voltado sua atenção a ações de sustentabilidade com a produção de peças orgânicas, veganas, sustentáveis, por meio do upcycling e recicladas.

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A mesma indústria que degrada, obstrui e estirpa a condição inerente do ser humano no sudeste asiático, com mão de obra em condições análogas à escravidão do século XIX, preocupa-se em valorizar pequenas produções locais com atenção à valorização de artesãos, à inclusão da mulher no mercado de trabalho e à valorização da produção por pequenas minorias. Pois é longe do glam, da riqueza há o outro lado de muita miséria, condições degradantes e também muita coisas que a nossa visão distorcida e míope insiste em não ver.

Paradoxalmente vivemos a era do “see now, buy now” que vai totalmente ao encontro da perspectiva atual de reflexão e consciência com o consumo, da valorização da pequena e média produção.

Os contrastes são visíveis, estão aos nossos olhos e prontos para quem quiser ver e ler. Quais as nossas perspectivas para tudo isso então?

Fica “see now, buy now”? Vai parar de poluir? Não dá para saber, essa dicotomia ainda continua muito forte. Análises históricas permitem muito bem fazer com que entremos em uma breve reflexão sobre o assunto. O homem nunca foi e nem será bonzinho do dia pra noite. Só decide parar na hora que a água bate na bunda. Quando doer no bolso, porque o planeta já não aguenta mais, daí a indústria da moda irá parar. Caso contrário, viveremos amplamente essa dicotomia.

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Sejamos sinceros com nós, é fácil tentar burlar essa leitura do capitalismo selvagem e avassalador? Não, primeiro o bolso pesa e quando o assunto é dinheiro todo mundo vai à “fast fashion” e compra o que a vida permite.

Segundo, preço não quer dizer nada. Tem muito item caro por aí de marca phoda, cujo nome preferimos não citar, que usa mão de obra escrava do Brás.

Terceiro, uma minoria tenta produzir tudo nos mais conformes, pagando todos os impostos, respeitando as legislações e sem impactar o meio ambiente. Nem sempre é possível. Não sejamos hipócritas, as peças chinesas não precisam nada disso, por isso entram em nossos países a baixíssimo custo com qualidade até superior. Fica fácil ser correto? Não, é quase impossível. Quando se consegue, o preço sobe e poucos conseguem consumir.

O cerne do buraco é tão mais fundo do que imaginávamos e envolve questões muito mais profundas que o âmbito local. A globalização nos trouxe muitos benefícios, mas o pior deles seria essa falsa de autonomia que nós criamos e que nos impede de resolver nossos próprios problemas sem ter que incomodar o vizinho.

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A nós compete tentar ou fazer nossa parte buscando, quando possível, identificar a matéria-prima, os recursos de energia empregados e o tipo de mão de obra. Repito, quando possível. Porque nem sempre é fácil e não vamos dar um de politicamente corretos e chatos. Nós entendemos a sua, a nossa e a dificuldade de todos em fazer isso.

Logo, para nós competiria às grandes marcas criar vergonha na cara, no sentido literal, e priorizar todo o alto lucro que recebem em alternativas a diminuição ao impacto ao meio ambiente, melhorias nas condições trabalhistas e redução no uso de matérias-primas. O exemplo deveria vir de cima, não acham?
Aí fica a mensagem, bem distante do ideal do consumista e degradante das metas do capitalismo. A moda tenta. Caminha, mas está longe de chegar ao ideal.

Escrito por Diogo Rufino Machado
Ariano. Apaixonado por moda masculina e música eletrônica. Advogado. Jornalista de moda e blogueiro nas horas vagas.