De expressão da individualidade à outdoors ambulantes, veja o que suas camisetas dizem sobre você!

Elas faziam parte da roupa íntima. Usadas como segunda pele, as camisetas foram criadas para proteger os operários do frio e absorver o suor do corpo. Quase oito décadas depois, se transformaram em forma de expressão de estilo e individualidade, além de ser uma peça que serve de código e de comunicação para muitos grupos e organizações. Conheça a história da camiseta e entenda por que ela nunca sairá de moda.

Nos anos 1930, ninguém jamais pensou que a camiseta fosse fazer parte do vestuário como peça “básica”. Elas eram usadas por debaixo de outras camisas e uniformes pelos operários, como meio de proteção para o trabalho. Duas décadas depois, foram adotadas como peça-protesto entre os jovens rebeldes que resolveram colocar para fora essa então considerada “underwear” e imortalizadas nos corpos de Marlon Brando (Um Bonde chamado Desejo, 1951) e James Dean (Juventude Transviada, 1955). O advento do cinema (e, assim,dos ícones juvenis) foram essenciais para tornar a camiseta peça obrigatória no modo de se vestir da juventude da época. Junto com o advento do jeans e a jaqueta de couro, tornou símbolo de rebeldia e modernidade.

“A camiseta está para a vestimenta assim como a tela está para o artista”

Foi aí que os empresários e organizações enxergaram que a camiseta, de fato, era um meio de comunicação não-verbal bem poderoso de modo que, na década de 1960, passaram a estampar frases e mensagens políticas em apoio a candidatos à presidência dos Estados Unidos, como mostra “The T-Shirt Book” de Charlotte Brunel. O contexto social-político estava efervescendo no mundo todo e era preciso algo que comunicasse de forma rápida e eficaz, então a camiseta foi usada, não só pelos políticos, mas por todos aqueles que queriam passar uma mensagem, como fizeram os hippies com suas mensagens contra a Guerra do Vietnã. Os punks também mostraram seu protesto através das camisas com mensagens atrevidas e provocativas de cunho social, utilizando-se de símbolos polêmicos, como a suástica.

A (marca da) camiseta como status

Nos anos 1980 e 1990, as grifes passaram à frente das organizações e estamparam slogans e logomarcas nas camisetas, aproveitam-se da geração jovem que tomou conta dessas duas décadas: ricos e extremamente consumistas. Os Yuppies (como eram chamados) foi a primeira geração de “jovens profissionais em ascensão”. Egocêntricos, materialistas e preocupados com o status, utilizavam a roupa para mostrar poder econômico e, por isso, a camiseta com logomarcas foram as mais aceitas. Quanto mais aparente a estampa da grife, melhor. No Brasil, entretanto, essa peça do vestuário tinha outra missão. Com as eleições que levariam à presidência Fernando Collor de Mello, o então candidato expressava seus anseios e intenções através das camisetas. Fazia aparições públicas com frases de efeito estampadas, que chegavam a virar manchete de jornais. Um movimento que, unido aos “caras pintadas”, agiu para o impeachment do presidente, foi chamado de “descamisados”, em referência às camisas da campanha de Collor. Esse foi um fato que mudou a conduta e o significado das camisetas na política do país.

Atualmente é a união de todos esses significados que ficou presente nos mais diferentes segmentos da sociedade. A moda caminhou para isso, e a democratização da mesma nos permite passar a mensagem que for: seja ela ideológica ou social. Hoje, a camiseta, mais que forma de se comunicar sem precisar necessariamente de palavras, é instrumento de expressão social e cultural e, devido ao seu legado, tem um papel extremamente importante nas mudanças sociais. “A camiseta está para a vestimenta assim como a tela está para o artista”, e é através dela que podemos nos expressar e identificar grupos através de cores, símbolos, frases e personalidades.

A orkutização das massas (ou a democratização da moda?)

Mas é importante ressaltar que nem todos os consumidores são conscientes do que isso significa para si próprio. Não é difícil ver meninas e meninos vestindo estampa “Jack Daniel’s”, sem saber de que se trata de um Uísque. Ou mesmo t-shirts que levam nomes de bandas que se tornaram extremamente populares nas bancas e sites de camisetas: Ramones, AC/DC, Kiss e Rolling Stones são exemplos de bandas consagradas que caíram no gosto das estampas, e são usadas às vezes inconscientemente pelo consumidor de massa, que absorve a informação sem ao menos reconhecê-la, ou saber o que aquilo pode significar para determinado grupo, país ou língua. Outro grande exemplo são as camisetas com frases em língua estrangeira, que se tornaram commoditie do grande público, que as consomem sem a preocupação de saber o que aquilo quer dizer. “Abercrombie & Fitch” e “Armani Exchange”, estampadas na região do peito também são tentativas, dessa vez conscientes, de quem veste querer ser percebido de uma determinada maneira através do legado da grife e do que ela representa, regressando ao conceito dos “Yuppies”, falado um pouco mais acima. A preocupação do status e a vontade de ser reconhecido por um determinado grupo (o do rei do camarote, nesse caso), são passadas com maestria através da camiseta, tornando-se quase uma assinatura própria. O mais curioso é ter a consciência de que, utilizando do seu corpo para evidenciar um nome de uma empresa (seja ela grife, partido político ou organização não governamental), por mais valor que isso agrega para si, o indivíduo só ajuda para a ascensão (ou a queda) da mesma, se tornando um pequeno outdoor ambulante.

Reis dos camarotes e falsos roqueiros à parte, a camiseta caminhou para ser uma peça do vestuário que ultrapassou a moda e conseguiu. Elas são um exemplo de poucas peças que falam por si só e são usadas para expressar opiniões, gostos e posições sociais. Ela luta por causas, propaga ideologias, representa pontos de vista e expressam gostos e preferências. Elas acompanharam a história da sociedade, se adaptaram ao boom da internet e hoje é usada como meio de comunicação por qualquer pessoa – seja de forma consciente, ou não.






Escrito por Dhyogo Oliveira
Blogueiro e designer de moda. Também escreve no Sem Geração.